Parte 1 — Introdução ao Problema do Mal
A formulação de Epicuro, as categorias do mal e os dois argumentos
“É Deus capaz de impedir o mal, mas não deseja? Então é malévolo. É capaz e deseja? Então de onde vem o mal? Não é capaz nem deseja? Então por que chamá-lo de Deus?”
Atribuído a Epicuro (via Lactâncio)
Este é o primeiro bloco de comentários pessoais sobre o problema do mal — uma introdução ao tema, cobrindo a formulação clássica de Epicuro, as categorias do mal e os dois principais argumentos, o lógico e o evidencial.
A formulação de Epicuro
Quando olhamos para o mundo em que vivemos, não podemos deixar de notar que coisas muito ruins acontecem — sejam esses males causados por agentes morais (pessoas) ou pela própria natureza (terremotos, acidentes naturais). Isso é, sem dúvida, uma realidade observável: o mal existe. Ao longo da história da humanidade, questionou-se a existência de um Deus bom simultaneamente à existência de grandes males — o que ficou conhecido como o problema do mal. Um filósofo chamado Epicuro é conhecido por ter iniciado uma formulação do problema do mal, o chamado 'teorema de Epicuro', que consiste basicamente em algumas premissas e algumas conclusões dedutivas e lógicas:
1.Se Deus é onisciente, então ele sabe que o mal existe e sabe como acabar com o mal.
2.Se Deus é onipotente, então ele tem capacidade de acabar com o mal.
3.Se Deus é onibenevolente, então ele deseja acabar com o mal.
4.Mas o mal existe.
— O teorema de Epicuro
A conclusão do argumento
A conclusão lógica a partir dessas premissas é que Deus não existe, ou então a perda de alguma dessas propriedades mencionadas. Vejamos dois exemplos de como isso poderia acontecer:
1.Deus pode saber do mal e desejar o bem, mas não ter capacidade de acabar com ele — logo, ele não é onipotente.
2.Deus pode saber do mal e ter capacidade de acabar com ele, mas não desejar fazê-lo — logo, esse Deus não é bom.
Categorias do mal: moral e natural
Ao tratarmos deste assunto tão complexo, é importante primeiro definirmos alguns termos iniciais. Vejamos, primeiramente, o que exatamente seria o mal e como podemos categorizá-lo. Mal moral: é o sofrimento causado intencionalmente por um agente moral, um agente livre — crueldades, violências e injustiças praticadas no mundo. Mal natural: sofrimento que não é causado por uma escolha humana, mas de forma natural, como doenças, tsunamis, terremotos etc.
Duas versões do argumento: lógico e evidencial
As versões, de forma bem resumida, dos principais argumentos são: o argumento lógico do problema do mal diz que é logicamente impossível a existência simultânea de Deus e do mal. Já o argumento evidencial mostra que, dada a quantidade enorme de males e sofrimento observável no mundo, isso seria uma evidência extremamente forte contra a existência de Deus.